Dentre todas as casas de música de Belém, a Casa do Gílson destaca-se como a mais nobre delas. Lá se ouve a melhor e a mais genuína música Brasileira, o Chorinho. Um chorinho afinado e inspirado, porque sai das mãos de músicos devotados e competentes.
Chama a atenção, logo que se adentra o lugar, as esculturas de madeira suspensas dos antigos músicos da casa, uma homenagem do proprietário àqueles que outrora também foram protagonistas de enlevados momentos de alegria e êxtase, mas que hoje, estáticos em uma posição que os eterniza, apenas testemunham o frenesi e a ânsia de viver daqueles que agora usufruem da vida e do presente. Creio que os Músicos de Madeira da Casa do Gílson são uma bela e criativa homenagem jamais concebida a um artista. Embora tenham tido seu tempo, eles continuam ali, existindo com sua música e os convivas. Congelados enquanto executam seus instrumentos, transmitem uma extrema lição de humildade e beleza, sugerindo que a vida é breve, que tudo passa, mas que vale passar com alegria e coragem.
Imagino que, à noite, depois que tudo acaba e que as luzes são apagadas, eles saem de suas posições e se põem a tocar e a comentar sobre um ou outro assunto; a tecer comentários sobre os convidados... Talvez sobre a moça que, naquela noite, dançava com tanta graça e sensualidade que chegava a despertar, nos homens ali presentes, um intenso desejo de amor e volúpia da carne... Ou, quem sabe, sobre o fato de que, hoje, as mulheres sejam menos recatadas, mais espontâneas e, por isso, parecem mais belas...
De repente, do palco, vem uma harmonia, uma música sublime, um som quase divino; e, como se abrisse uma cortina do tempo, há uma imensa quantidade de pessoas bebendo, dançando e fumando. Seus trajes são diferentes, e o perfume das mulheres traz o cheiro de uma outra época; todos sorriem, e dançam e bebem e há beijos, uma poluição de sons e vozes. Olho para minha direita, para o alto, e não vejo mais os músicos de madeira, ainda há pouco suspensos no ar. Estão todos ali, incrivelmente vivos, eternizados pelo tempo a fora, através da música e da poesia da vida.
Belém, novembro de 2009
Textos que falam da Cidade de Belém, onde vivo atualmente, seus costumes e suas pessoas; também de artes, literatura, música e fatos do cotidiano, de modo geral.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Músicos de Madeira da Casa do Gílson
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